domingo, 6 de abril de 2014

Espelho

Dizem que o amor escraviza. E que a paixão, não é mais que um demónio. E que muitos estiveram perdidos de amor.
Sei que isto é verdade,mas também sei que sem amor estaríamos a rastejar em túneis e nunca veríamos o céu.
Quando me apaixonei foi como se eu olhasse para um espelho pela primeira vez e me visse. Levantei a minha mão e senti a minha cara, o meu pescoço. Isto sou eu. E enquanto olhava para mim e me habituava a quem era, não tinha medo de me odiar: porque queria ser digno de quem me segurava o espelho.


Probabilidade

Caminha comigo, mão na mão através das luzes de neon e a espuma. Por cima das lâminas e dos corações partidos. Por cima da sorte e dos que são perseguidos por ela. Por cima dos restaurantes e dos rastos de estrelas.
Sei que sou um idiota, à espera que a poeira e a glória sejam uma espécie de tinta luminosa; as humilhações e exaltações que nos elevam. Eu vejo como um insecto, tudo demasiado grande, a pressão do infinito a martelar-me na cabeça. Mas como é que se pode viver, verticalmente como eu o faço, sendo puxado para cima e para baixo simultâneamente? Nem quero assumir que me possas entender. É como quando quero inventar o que te quero dizer, tu vais querer inventar o que queres ouvir. 
Que história que temos. Palavras escritas em papel amachucado. Um sinal, uma luz ténue através do espaço um do outro.
A probabilidade de dois mundos se encontrarem é muito pequena. É uma imensidão demasiado grande. Mas, mesmo assim, construímos naves. E, mesmo assim, apaixonamo-nos.

sábado, 5 de abril de 2014

Romance

"Vais ultrapassar isto..." São os clichés que causam o problema. Quando perdes alguém que amas, alteras a tua vida. Não vais ultrapassar isto porque "isto" é a pessoa que amas. A dor pára, há pessoas novas, mas o buraco nunca é fechado. Como seria isso possível? As particularidades de alguém que te diz algo mais, o suficiente para estares assim dizem tudo. 
Este buraco em mim tem a tua forma e mais ninguém o consegue fechar. E porque é que eu quereria que algúem o fizesse?
E enquanto não te tenho, espero por ti. Sou o tipo de pessoa que era capaz de perder o comboio ou um voo só para tomar café contigo. Apanhava um táxi e, atravessava a cidade só para estar contigo dez minutos. Esperava à tua porta toda a noite se fosses tu a abrir-me a porta de manhã. Se me ligasses e dissesses "Podias..." a minha resposta era "Sim", mesmo antes de acabares a frase. Eu brinco com mundos onde possamos estar juntos. Sonho contigo.
Para mim sonhos e desejos estão muito próximos.

Talvez, o romance seja mesmo isso; não um contrato entre duas partes iguais mas uma explosão de sonhos e desejos que não se podem encontrar assim, no dia a dia. Só um drama é que servirá e enquanto o fogo de artificio durar, ao menos, o céu é de outra cor.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Vento

 Também acordas como eu acordo, esquecida do que é que doi ou onde doi, até que te mexes? Há um segundo de consciência que é claro. Um segundo em que és tu, sem memória ou experiência, o animal que acorda para um mundo novinho em folha. Há o sol que dissolve a noite, a luz mais clara que a música, que te enche o quarto onde dormes e os outros espaços por detrás dos teus olhos.

Disseste-me "Amo-te". Porque é que isso é a coisa mais banal que alguém pode dizer a alguém e, mesmo assim, é aquilo por que mais ansiamos ouvir. "Amo-te" é sempre uma frase. Não o disseste ao inicio, nem eu o disse. Mas, quando tu o dizes e quando eu o digo, falamos como selvagens que encontraram uma palavra e a veneram. Eu sei que a venerei mas agora estou sozinho em cima de uma rocha, fora do meu próprio corpo.
Eu era feliz, mas "feliz" é uma palavra de adulto. Nunca tens de perguntar a uma criança se ela é feliz. Elas são ou não são. Nós, adultos, falamos de como somos ou podemos ser felizes mas maioritariamente não o somos. Falar sobre isso é a mesma coisa que tentar agarrar o vento que passa. É muito mais fácil deixá-lo passar por ti.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Momento certo

Eles amam-se. Toda a gente sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossível. Ele continua a viver a sua vida idealizada e ela continua a idealizar a sua vida. Alguns dizem que jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um está um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por aí, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é difícil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles perguntam-se sobre o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontrem que nada, nada seja por acaso.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Peter Pan

Um dia chega a mim a calma. O meu Peter Pan hoje ameaça-me. Aqui há pouco que fazer.
Sinto-me noutra rua, numa de estar em casa sozinho. Será culpa da tua pele?
Será que cresci, que alguma coisa tocou neste botão para que o Peter Pan se vá embora?
E talvez viva agora melhor, melhor comigo e com o meu interior.
Que a Sininho cuide de ti e te guarde...
Às vezes gritas aí do cimo, do céu, para destruires a minha calma. Comigo já não tentes nada: parece que o amor me acalma.
Se levas a minha infância, leva o que sobrou dela em mim. Se te vais embora, vou conseguir viver com a paz que preciso e pela qual tanto ansiei.
Passaste um bom dia junto a mim, parecia que querias ficar. Não havia maneira de saber.
Vais-me perseguindo  como um trovão, como um relâmpago azul.
Quando te fores embora crescerei e, encontro tantas partes que tinha esquecido.
Vê que já chegou o tempo, tenho paz e é o momento de crescer.

Espero que não volte mais, que fique quietinho como está, que ele de mim já teve bastante.
Foi uma fase para não mais esquecer, uma fase má que agora quer descansar.

Que a Sininho cuide de ti e que te guarde.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Nos desenhos animados nunca acaba mal

"Eu quero a sorte de um cartoon, nas manhãs da RTP1. Sou o teu Tom Sawyer e o teu Huckleberry Finn, e vou de mascarilha e espadachim. Lá em cima há planetas sem fim. Queria ser o teu super-heroí, sem tirar o chapéu de cowboy. Com o meu galeão e uma garrafa de rum, eras minha e de mais nenhum.
Um por todos e todos por um.
Nos desenhos animados, eu já conheço o fim: o bem abre caminho a golpe de espadachim. E o papel de príncipe encantado sobra sempre para mim.
Tu és Jane e eu Tarzan, Julieta e eu D'Artagnan. Se o teu cavalo falasse, tinha tanto para contar aos fantasmas debaixo dos meus lençoís. Dos tesouros que escondemos dos espanhois.
E quando chegar o final, já podemos mudar de canal. Nos desenhos animados é raro chover. 
E nunca, quase nunca acaba mal."

Nos desenhos animados - Os Azeitonas (adaptado)