terça-feira, 4 de março de 2014

Assasino

Se achas que vais conseguir atravessar sem um único arranhão... Se achas que o último a ficar de pé, não vai estar sujo de terra... Nunca estiveste numa guerra.

E foi assim que perdi tudo.
Trabalho pela calada da noite, quando esta está mais escura. Quando as estradas estão calmas, e não há ninguém que me veja.
Numa corrida contra os semáforos, para descobrir que o portão está aberto. Ela está à espera no quarto e eu entro.
Entras, fazes o teu trabalho e vais-te embora. Não deixas pistas, nem mostras a tua cara.
Devia ter dado meia volta e ido embora antes de o sol nascer outra vez. Mas o sol nasceu outra vez.
Através da luz do sol, apercebo-me que o dia está a queimar as cortinas e o vinho no pequeno quarto branco.
E nunca estou sozinho, ela está sempre na minha cabeça. Ela dorme com a cabeça no meu peito, como uma criança. O que é que eu posso fazer?

Eu era um assassino, o melhor que já viram. Roubava-te o coração muito antes de me ouvires entrar. Eu era um assassino e tinha um trabalho a fazer.

Nem sabia que ela também era uma assassina.
De repente, saio de mim e mal consigo respirar. De repente flutuo sobre a cama dela e consigo sentir tudo.
E de repente sei o que fiz mas, nem me consigo mexer. E o que vai significar para mim.

Ela é uma assassina e, tinha um trabalho a fazer.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Amor - Uma grave doença mental

Ama-se quem se ama, não quem se quer amar. E é preciso reinventar o amor, toda a gente sabe.
O amor tem a virtude, não apenas de põr a nu duas pessoas frente a frente, mas também cada uma delas diante de si mesmo.
Por mais duro que alguém seja, derreterá no fogo do amor. Se não derreter é porque não é forte o suficiente.
E hoje em dia as pessoas apaixonam-se porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das calças, das cuecas e das contas da lavandaria.
O amor é uma coisa muito estranha, que todos os dias nos acorda, depois de sonhos inequívocos, a lembrar-nos que estamos condenados à pessoa que amamos. E ficamos, por estarmos apaixonados, convencidos. Que o nosso coração por inteiro, por estar ocupado por ela, está entregue e disposto a expandir-se infinitamente por causa disso - duma só pessoa.
Engraçado como as canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Nunca falam dos serões a ver televisão no sofá. Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries e filmes francamente maus. Talvez chova lá fora e esteja frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo em frente à caixinha mágica onde passam as séries e filmes mais parvos que já se fizeram. E daqui a nada começam as televendas, também serve.
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pausa que refresca, a momento "Coca-Cola", o nosso "dá lá um jeitinho" sentimental.
O amor é a nossa alma a desabar, a desatar a correr atrás do que não sabe, do que não apanha mas não larga e não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e se sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito do que a vida. Que se lixe a vida.
O grande amor nunca pode acabar bem. Mesmo que ambos morram ao mesmo tempo, num desastre, será sempre uma tragédia. Assim é com todos os amores que temos: morremos enquanto os amamos. Morre quem amamos e, ao mesmo tempo, quem nos amava.

Há vários motivos para não amar uma pessoa e só um para amá-la - esse deve prevalecer.

E o mal... O mal nunca está no amor.

domingo, 2 de março de 2014

Luz


Quando me magoaram, o que conseguiram foi fazer-me ainda mais bonito. As rachas à volta do meu coração, deixam a luz passar.
Quando me magoaram, os pedaços que estão no chão...Pego neles e consigo juntá-los ainda melhor do que antes.
E, sinceramente, quero manter-me onde a luz está.

Se de cada vez que me partem, eu me consigo re-inventar ainda melhor... Quebrem-me, partam-me, rasguem-me, deitem fora... As vezes que quiserem. Há-de chegar uma altura em que alguém me vai encontrar e aí vai ter de mim o que ninguém teve. 
O estúpido da questão, é que só me quero dar a ti e só te quero a ti. Cada música que oiço, cada raio de sol que sai de entre as nuvens nestes dias, cada viagem, férias ou fim de semana que programo penso sempre em ti para ires comigo.
Penso em realizar-te todos os desejos e ser o primeiro em muita coisa que não fizeste.
É quase como dizer que me estou mesmo a re-inventar por ti e para ti.

E, sinceramente, quero manter-me onde a luz está. Na esperança que a vejas.

sábado, 1 de março de 2014

Vultos

"A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte. Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas. Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura. Ora amarga, ora doce...Para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura."
 Ouvi Dizer - Ornatos Violeta in O monstro precisa de amigos

Melhor definição para o amor não encontrei até hoje. O amor é de facto uma doença silenciosa. Não dá direito a baixa médica, não há curas, comprimidos, injecções ou xaropes para que ele passe. E era bom que ele passasse tão silencioso quanto vem. Seria tudo mais simples. 
É o amor e o sonhar que são doenças. Quando sonhamos criamos esperanças e expectativas. E quando o sonho é bom, quando é tão real que sentimos tudo: cheiros, toques, lábios...Cabrões dos sonhos. Enganam-nos e fazem-nos sempre querer mais. E fazem-nos querer voltar para trás neles mesmos. Quem de nós, já não desejou voltar a trás no que estava a sonhar ou com o que sonhou na noite anterior?
Sonhos e amor estão sempre interligados. Como dois vultos, que se escondem nos cantos escuros do quarto enquanto estamos a dormir...e juntos gozam e riem-se de nós. Fazem planos, estão horas a delinear estatégias só para nos passar a perna e fazer-nos cair de cara no chão. 
Quando somos miúdos, falam-nos do bicho-papão mas, nunca nos falam que os verdadeiros monstros, à noite, são mesmo o amor e os sonhos. Esses sim, metem medo. É bom sonhar? Sim. É bom amarmos? Completamente. Mas esses bichos têm sempre o dom (sempre!) de nos fazer bater com as orelhas nalguma esquina da vida e lixar-nos os planos.
É bom sentirmos isto tudo... Melhor seria conseguirmos manter aquilo que amamos e aquilo com que sonhamos.
Era tudo muito mais simples e indolor.
Mais indolor seria não sentir nem sonhar com nada. Será o próximo patamar a explorar na evolução.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Simpatias

Tu e eu temos qualquer coisa. E é tudo e, de repente, não é nada para mim.
E tenho as minhas defesas consoante as tuas intenções. Agora, acordamos com as coisas que nunca sonhámos que poderíamos ser.
Não fui eu que te quebrei, não é de mim que deves ter medo. Pensava que te tinha perdido nalgum lado, mas nunca estiveste (sequer) lá.
Sinto-te a cair, e tudo o que quero ser é tudo para ti. Mas o agora foi embora.
E mais estranho que a tua simpatia - esta é a minha desculpa - é eu ter-me morto de dentro para fora. E todos os meus medos te terem conseguido afastar. E tenho medo mas, não estou a rastejar de joelhos.
Está tudo mal, onde é que raio eu pensava que estava?
E mais estranho que a tua simpatia, tira-me isto tudo para que eu não sinta. Estou-me a matar de dentro para fora e tenho a cabeça cheia de dúvidas. E tu não consegues ver que o que sonhaste não se está a tornar realidade. Diz-me, é fácil esquecer enquanto te engasgas nos arrependimentos?
E mais estranho que a tua simpatia, são todas estas coisas que roubaste de mim. E agora nem sei bem aonde pertenço.

E ainda estou apaixonado com as coisas que só achava que tinha.
E não serei eu a ajoelhar-me perante os sonhos que quis.
E toda a escuridão e todas as mentiras eram só coisas disfarçadas de mim.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Tormentas

Quando o amor é verdadeiro, nunca se apaga. Ninguém tem interruptores de on/off no coração e nem conseguimos enfiar a mão no peito e arrancar aquele chip que nos faz sentir assim/assado/frito/cozido.

Era bom? Era... mas é impossível.
Estou a falar de amor a sério, não de paixões ou ilusões. 
A paixão, deixa-te nas nuvens, é bonita e os sintomas são quase idênticos aos do amor: sentes-te nervoso, tremes todo, até podes suar nalguns casos. Mas com a paixão, não estás disposto a dar o salto por aquela pessoa. O teu pensamento é "sou como sou, quem gosta muito bem! quem não gosta come menos" - ou algo do género. Ok, é um bom pensamento. Temos que nos manter minimamente fieis ao que somos. Contudo, com a paixão não estamos dispostos a ver as nossas falhas, nem a melhorá-las. Podemos tapá-las durante uns tempos com umas roupas bonitas mas, passado um tempo, só nos apetece rasgar essa roupa, dar dois berros e voltar ao mesmo. E é o que acontece. Já aconteceu comigo e já vi acontecer à minha frente. Paixão é "tesão de mijo".

Agora, o amor. Pelo amor estás disposto a realmente reflectir sobre as tuas atitudes e defeitos. Tentar realmente melhorar e dar o tão famoso salto. Amor e amar é um sacrificio. É um sacrificio, mas é em nome de algo maior que nós e quando o estamos a fazer nem notamos isso. Chama-se crescer. 
Há subtis diferenças entre paixão e amor. Com a paixão, quando vês o objecto dessa tua paixão talvez olhes, consigas sorrir e pronto já está. Ou talvez, cruzes o olhar duas, três vezes no máximo. E é tudo.
Com o amor isso é diferente. Quando vês quem amas, tudo o resto à tua volta desaparece e enquanto co-habitam o mesmo espaço está sempre inerente aquela presença, esteja ela a cinco ou a cinquenta metros de ti. Olhas durante horas se for preciso. Sentes não os batimentos cardíacos mas murros no peito.
E apesar de te custar, continuas a olhar, a fazer este jogo masoquista. Como se tentasses decorar e absorver cada pormenor de quem amas. Como se a visses pela primeira vez. E quando os olhares se cruzam o ar fica mais pesado, cheira a chuva e trovoada. O som fica um eco muito longínquo. E o tempo abranda.

Há alturas na vida, alturas muito raras e que acontecem ainda a um grupo ainda mais raro de pessoas em que, antes de saberes sequer o nome ou se fala a tua língua ( já faltava um bocadinho de globalização neste blog) com um simples olhar tudo se transforma. Eu sei, insisto sempre neste capítulo. Estou fascinado com este fenómeno... Só tinha lido livros, visto meia dúzia de filmes e ouvido três, quatro canções sobre o tema. Não sabia que o ia viver. Aqueles dias em que te levantas e é tudo igual (pensas tu). E em dez segundos, vês que te enganaste e que se calhar não sabes é nada sobre o tema.

Paixões são como marés, vão e vêm conforme fases lunares.
O amor é sinal que estamos vivos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Fases

Estava a pensar sobre relações e, como isso se funde com as canções sobre relações e, enquanto tentava pensar cheguei à conclusão de como fazer as coisas resultar.

Quando conheces alguém, e descobres que esse alguém gosta de ti - primeiro que tudo - um amigo de um amigo dessa pessoa diz "Ela gosta mesmo de ti" e isso mata-te, atira-te para o chão. E tens de te apanhar pedaço por pedaço; depois consegues o número de telefone e ligas ou mandas mensagem certo? E dizes  "Sim, é uma conversa realmente boa, podemos ir tomar café um dia destes?" e depois dizem-te isto "Sim, gostava muito...". E nada te faz sentir melhor do que aquele "Gostava muito". Então, saem durante uns tempos. estão sempre a trocar mensagens e tu largas a bomba, o que tu achas que é uma bomba: "Sabes que mais, tenho pensado imenso em ti". E ela começa "Ahhhhh!", e tu "O que se passa?" e ela responde "Desculpa, é que eu também tenho pensado em ti ". Pum! Disparado em direcção ao céu. Mas agora o "Gostava muito"...completamente acabado. Agora o que conta é "Tenho pensado em ti também".

E aí, passado uns tempos, quanto te sentires confortável para o dizeres: "Tenho que te dizer algo", "O quê?"..."Estou apaixonado por ti". E nada no mundo soa melhor do que "Estou apaixonado por ti". E talvez ela comece a chorar, ou fique sem ar... E de repente pensas "Já está...". Mas agora o que é que não resulta? "Gostava muito" e "Tenho pensado em ti também". Agora estamos na fase do "Estou apaixonado por ti".

E talvez um dia se consiga avançar para o "Amo-te".
Fast forward, agora estás na fase "Amo-te tanto; amo-te mais que tudo na vida". Agora "Amo-te" não resulta.

É um limiar que está sempre a avançar. 

Fast forward outra vez, seis dias, seis semanas, seis meses dependendo do caso. Agora é " Quero casar contigo; só quero enviar-te todo o meu amor; as palavras não resultam mais". E depois dizes esta frase, toda a gente a diz: " Quem me dera que pusessem uma palavra no dicionário maior que amor, porque amor já não descreve o que sinto". E é aqui que ela começa a perguntar " Amas-me?" e respondes "Claro que te amo".
"Então diz!". E voltamos ao mesmo: Dizes duas, três vezes.
E é aqui que atravessamos um ponto realmente interessante quando tudo começa a ser "Odeio-te!". "Oh meu deus, ela odeia-me". Agora é "Odeio-te mais que tudo!" e o clássico "Acabou", "Não acabou nada", até que te fartas e "Sim, acabou mesmo".
E agora as palavras já não resultam e ficas sem nada. Dás socos debaixo de água. Estás acabado.

E sabes qual é a moral da história, se é que há uma? Nunca, mas nunca, nunca, nunca subestimes o poder de "Gostava muito".